Do outro lado do mundo

Há três anos, estive em missão em Timor-Leste, também conhecida por “Terra de Dom”, uma ilha entre os mares do Oceano Índico que marca pelas paisagens, pela língua, pelas cores e, principalmente, pelas pessoas. Tive a oportunidade de passar um mês numa escola, no meio de uma aldeia perdida, entre as montanhas deste país, Zumalai. Até hoje, ainda não há um dia que passe, em que não me lembre dos miúdos com quem me cruzei, dos seus sorrisos e abraços calorosos. De como, mesmo sendo mais novos que eu, me ensinaram a viver, a agradecer e aceitar cada dia como uma dádiva, que não podemos dar como garantida. De como me mostraram que no despojamento mora a beleza e que “desligar o complicómetro” é, na grande maioria das vezes, a melhor solução. Do outro lado do mundo, ensinaram-me que só a saber perdoar e a sermos gratos pelo que temos, no presente, poderemos viver em plenitude. 

Para dar vida àquilo que conto, partilho um dos episódios que mais me marcou, neste tempo que passei com estas crianças. Certa tarde, acabados de ouvir o som de um miúdo a bater com uma pedra numa jante velha, pendurada num ramo duma árvore, o “toque da campainha” na escola, em Zumalai, saímos para passear com os miúdos, antes do final do dia. Foi neste tempo que conheci a Aprília. Fiz conversa com ela e o seu grupo de amigas, as meninas mais queridas, carinhosas e com mais vontade de aprender que já conheci. Porém, eu e a Aprília, a meio da caminhada, ficamos as duas para trás, a falar, enquanto passeávamos. Pediu que me contasse como era Portugal e o que lá fazíamos. Contei-lhe que, tal como ela, ia todos os dias à escola, e que, se tudo corresse bem, em Setembro iria para a Universidade para estudar "para ser doutora", como lá dizem. Sorriu e disse-me que a irmã estava a fazer o mesmo na Indonésia, e que sentia muitas saudades dela, pois era a sua companhia, todos os dias, na longa caminhada de 2 horas a pé desde casa até à escola, em Zumalai. Fomos partilhando experiências, falando sobre os costumes de Portugal e Timor, aprendendo uma com a outra. No final desse dia, abraçou-me, dizendo "Ha'u gosta ó, até amanhã" (“gosto muito de ti”, em Tétum), e senti uma alegria inexplicável. Desde então, vários foram os momentos em que fortalecemos os nossos laços de amizade e partilhamos muitas conversas, e até viagens de camião de caixa aberta a cantar juntas. Sempre senti a sede de saber mais e melhor, assim como a vontade de viver arrebatadoras desta menina. Chegado o dia do regresso, deixei-a como última de quem me despediria, pois sabia que, se a todas as crianças me custava fazê-lo, com ela ia custar um bocadinho mais. Quando já me chamavam para ir embora, as lágrimas tornaram-se inevitáveis e necessárias, e assim abracei a Aprília com uma força que não sabia ter e uma vontade enorme de voltar atrás e viver tudo outra vez. Mal acabamos de nos despedir, deu-me um terço. Disse-me que em oração estaríamos sempre juntas, não interessava a distância entre Timor-Leste e Portugal. E foi desta maneira tão simples que esta menina me deu uma lição de gente grande, que me inspirou e continua a inspirar.


Francisca Brás Marques






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