O que me inspira?

O que me inspira? Eis uma pergunta tão fácil, mas ao mesmo tempo tão difícil de responder. Na era da globalização e do acesso facilitado à informação, nunca tivemos tantos filmes, séries, livros, músicas, notícias e artigos disponíveis à distância de um simples clique. No entanto, quando a oferta é muita, torna-se mais árdua a tarefa de escolhermos o que nos move e o que nos torna mais conscientes e conhecedores do mundo que nos rodeia. Cabe-nos a nós desbravar esta avalanche de informação, sendo, justamente, esse o processo que determina o tipo de pessoa que escolhemos ser não só porque a aprendizagem, a vontade e a motivação são indissociáveis da inspiração, mas também porque nós somos o que nos inspira.

Hoje não partilho um filme, documentário, livro ou pessoa inspiradora, mas um momento em particular, cuja lembrança me inspira todos os dias a ver o Mundo com mais Coração.

Numa viagem pelo magnífico continente africano, na qual tive a oportunidade de percorrer milhares de quilómetros de carro por cinco países, não foram apenas as paisagens arrebatadoras, o céu estrelado ou os pores-do-sol inigualáveis que me marcaram. Foi, sim, um gesto simples de altruísmo praticado por uma pessoa que me era desconhecida. Gesto esse que poderia ter tido lugar em qualquer outra parte do mundo, em qualquer outra circunstância do dia-a-dia.

Tal como era habitual, quando o sol começava a querer esconder-se, procurávamos um sítio adequado para montar acampamento. Nesse dia, calhou ser próximo de uma aldeia, perto de Savate, em Angola que, tal como tantas outras, não tinha acesso a energia, rede telefónica e outras comodidades que tomamos como garantidas no mundo ocidental. Coincidentemente, era o nosso último dia a acampar, por isso esmerámo-nos na nossa fogueira e no jantar. Não tardaram em aparecer crianças curiosas com o que ali se estava a passar (espantem- se se vos disser que algumas nunca tinham visto luz elétrica na vida!). Em breves instantes, grande parte da população da região estava a cantar e a dançar connosco à volta da fogueira. Depressa deu para perceber que não era preciso usar os dedos todos de uma mão para contar a totalidade das crianças que tinham algum tipo de calçado improvisado (sapatilhas sem sola ou restos de garrafas), pois as restantes andavam descalças e as suas roupas, estavam tão desgastadas do uso que já nem tinham cor ou estavam tão esburacadas que deixavam mais a descoberto do que coberto. Sem pensar duas vezes, dei por mim a oferecer as sapatilhas que tinha nos pés a uma delas e, rapidamente, o restante grupo fez o mesmo, todos deram o que podiam, numa tentativa de partilhar o que temos a mais e pouca falta nos faz. Desfrutámos dos sorrisos e dos olhares embevecidos das crianças a ouvirem as melodias da guitarra, cantámos e dançámos até não aguentarmos mais.

Na manhã seguinte, enquanto desmontávamos o acampamento, para minha grande surpresa, veio uma senhora ter comigo com a tampinha de uma das caixas de bolachas que tínhamos andado a distribuir irmãmente no dia anterior. Tinha um sorriso característico e, facilmente, consegui perceber que se tratava da mãe do menino a quem tinha oferecido as sapatilhas. Trazia dois ovos caseiros na tampinha e pedia encarecidamente que os aceitasse como forma de agradecimento. Este gesto, motivado pela mais bonita das emoções humanas, para além de ser um autêntico banho de humildade e de me ter comovido (visto que estes dois ovos eram muito mais do que um simples alimento para esta família, uma de tantas outras que está ao completo abandono numa zona remota de África) despertou em mim uma enorme vontade de tentar ser mais Coração para o Mundo.

Sobre a forma de texto, imagem, música ou vídeo, partilhem connosco o que vos inspira a ver o mundo com mais Coração!

Mafalda Mogas



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