De olhos postos no novo amanhecer. Este é o mote da história que venho, hoje, partilhar convosco. O retrato é a Mama Cathy Groenendijk. Um exemplo de humildade, determinação, coragem e dedicação que me comoveu, quando lhe conheci a história. A Mama Cathy é uma daquelas pessoas que nos faz sentir pequenos por, tantas vezes, não valorizarmos o privilégio que é sentirmo-nos seguros, termos acesso à educação e a outros direitos básicos como a água potável, a alimentação adequada, a uma casa, à liberdade, ao poder de escolha. Ao mesmo tempo que me fez refletir sobre estas questões, garantidas para mim, a Mama Cathy despertou- me um desassossego e uma vontade de fazer mais. Assim, mesmo nunca tendo contactado diretamente com esta senhora, sinto que estou em dívida para com ela, por isso, a minha forma de lhe retribuir é deixar que ela também vos inspire.
Conheci, pela primeira vez, a ONG Confident Children Out Of Conflit (CCC) através do programa de televisão da RTP, Príncipes do Nada, que é dirigido pela Catarina Furtado e um espelho de realidades desiguais que estão longe, mas que se fazem perto, por serem representadas com a autenticidade que a partilha de contextos diferentes do nosso exige. Desde 2006, e até 2020, a RTP emitiu 5 séries de Príncipes do Nada em horário nobre, e é na terceira, em 2011 e na cidade de Juba, capital do Sudão do Sul, que a CCC é representada, pela primeira vez. À frente desta organização está Cathy Groenendijk, cuja missão é dar confiança e auto-estima às crianças mais vulneráveis do Sudão do Sul, protegê-las dos danos de um conflito que se arrastou durante dezenas de anos, afastá-las da violência e da prostituição e garantir-lhes direitos e sonhos.
O Sudão do Sul é o mais jovem país do mundo. A maioria da população vive no limiar da pobreza, por isso os pais consideram os filhos uma fonte de rendimento e não priorizam a sua educação. A violência sexual é um dos principais problemas. As meninas são particularmente vulneráveis neste contexto e, não podendo recusar-se a trabalhar, entram no mundo da prostituição aos dez, onze anos. Por esta razão, um dos principais objetivos da Mama Cathy, como as crianças carinhosamente a tratam, é proteger as meninas dos abusos físicos e sexuais e apostar na sua educação, garantindo-lhes condições que as possam transformar, um dia, em agentes de mudança no seu país. A coragem de Cathy já lhe valeu muitos inimigos, no entanto, a sua resiliência e esperança no futuro foram sempre suficientes para continuar a investir e proteger estas meninas.
Em 2020, na quinta série de Príncipes do Nada, encontrei a Mama Cathy e a CCC novamente, desta vez no Uganda e depois de uma evolução inacreditável, que faz emocionar quem assiste. Entre 2013 e 2016, os conflitos em Juba intensificaram-se, acentuados pela violência de género, as escolas fecharam e, por isso, Cathy decidiu abandonar o Sudão do Sul e instalar-se no Uganda, tendo inscrito as crianças em internatos e conseguido o estatuto de refugiados para todos, garantindo-lhes o direito a ir à escola e de circular livremente no país. As meninas que antes tinha conhecido, em 2011, cuja esperança no futuro era quase nula, estavam agora a estudar, felizes, com objetivos e sonhos a concretizar.
Ser testemunha deste percurso, desta evolução moveu-me e é a prova de como a resiliência, a confiança e investimento no potencial de alguém em quem acreditamos, são um ponto de partida verdadeiramente inspirador.
Catarina Oliveira

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